sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Contador de Estórias




O contador de estórias era um velhinho que possuía muitos filhos e com o passar dos anos, muitos netos. Eles adoravam ouvir as suas estórias. Muitas estórias eram contadas muitas e muitas vezes e mesmo repetindo a mesma estória, cada uma delas sempre acabava de maneira diferente. As estórias que mais ele contava, eram estórias de assombração. As crianças se reuniam o redor dele toda a noite, a espera de mais uma estória. E ele sempre começava assim: Certa noite eu precisava sair a cavalo para resolver uns assuntos num lugarejo próximo de onde eu morava. Eu era delegado de polícia e a cidadezinha onde eu morava era um vilarejo com poucos habitantes. Era uma noite muito escura. Havia uma lua cheia iluminando o caminho. Não existia nessa época luz nos postes das ruas, muito menos nos caminhos que eu precisava percorrer. Enlacei o meu cavalo e fui a trote lento, sempre atento a qualquer movimento. Quando passei em frente ao cemitério, vi saindo de dentro dele um homem todo de preto, montado em um cavalo negro. Usava um chapéu de abas largas, que cobria todo o seu rosto e uma capa comprida que caia por sobre o cavalo. A princípio, não me preocupei, apesar de ter achado estranho o lugar de onde ele tinha saído. Observei que ele ia a trote lento, emparelhando com o trotar do meu cavalo. Ele seguiu em silêncio por um longo tempo, sem nada falar. Quando chegamos a uma encruzilhada, ele desapareceu como se tivesse sido engolido pelo breu da noite. Nesse exato momento, senti um calafrio percorrendo todo o meu corpo. Apressei o cavalo o mais que pude e não olhei mais para trás. Mesmo assim, tinha a nítida impressão de que ele continuava trotando com seu cavalo negro. Ouvia o barulho dos cascos do cavalo desaparecendo no silêncio da noite. Percorri o resto do caminho imerso em meus pensamentos. Perguntei a mim mesmo milhares de vezes o que aquela aparição poderia querer e não cheguei a nenhuma conclusão, já que o cavaleiro negro apenas me acompanhou por um longo tempo e não falou uma única palavra, nem eu perguntei o que ele queria, cavalgando ao meu lado. Cheguei ao meu destino e resolvi dormir por lá mesmo, esperando o dia clarear para poder voltar. Esse contador de estórias era o meu avô e soubemos mais tarde que as estórias que ele contava eram verdadeiras e que ele possuía o dom de ver coisas que as pessoas normais não podiam ver.



Débora Benvenuti

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Sol também se levanta





Por muito tempo o Sol esteve encoberto por nuvens escuras e densas,um prenúncio de tempestade caindo sobre todos os habitantes da terra, em especial, em um país tropical, onde muitos se acostumaram a não ver o sol nascer. Para muitos, as trevas eram o único lugar disponível para abrigar toda a população deste planeta. Certo dia, um raio de Sol transpassou as nuvens e começou a aquecer a terra. Muitos que estiveram nas sombras puderam vê-lo emergir suntuoso entre as nuvens e puderam sentir o efeito benéfico que seus raios transportavam. Sentiram um alívio imediato. Uma sensação de euforia nunca antes sentida. Cada habitante da terra percebeu que era hora de se levantar e recuperar as energias perdidas durante todo o tempo em que as trevas dominaram a terra. Um por um, todos se deram conta que era hora de reagir. E todos foram à luta. Era preciso varrer da face da terra um abutre chamado Corrupção. Não foram poupados esforços. A união veio das redes sociais. Todos se conscientizaram que tudo o que estava errado precisava mudar. Surge então nos céus, a Águia Dourada, que com sua força e coragem derrubou em um voo rasteiro, cada um dos abutres que ainda sobrevoavam essa terra maravilhosa, chamada Brasil!


Débora Benvenuti

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A Inveja,a Inocência e a Percepção





A Inocência era a candura em pessoa. Tinha uma aura delicada que refletia toda a sua simpatia, o que fazia com que a Inveja se aproximasse dela sempre com más intenções. Ao perceber a presença da Inveja, a Inocência se sentia desconfortável, mas não sabia o porquê dessa sensação que ela não conseguia decifrar.  Distribuía sorrisos por onde quer que passasse ,mas percebia sempre um olhar carregado de alguma coisa que ela não sabia definir. A Percepção estava sempre por perto e presenciou muitas vezes olhares cheios de malícia direcionados à Inocência. Pensou em avisar a amiga, mas tinha medo da sua reação. A Inocência não via maldade em nada. Por sua vez, a Inveja se aproximava da Inocência e tentava disfarçar todo o fel que sentia, por não poder se comparar a tão bela criatura. Dizia alguns gracejos, mas todos eles destituídos de sentimento. Tão azedos que ela própria se sentia a mais amarga das criaturas. Queria ferir a Inocência no mais profundo do seu ser e ficava horas por perto, na tentativa de descobrir algum defeito naquele ser tão cheio de qualidades. A Percepção resolveu então dar um basta naquela situação. Chamou a Inveja a um canto e lhe disse que tomasse cuidado com o fel que destilava, senão ela própria acabaria se afogando no próprio veneno. A Inveja fez algumas insinuações, na tentativa de se defender, dizendo que a Inocência não era tão inocente como queria parecer. Ao que a Percepção respondeu: e você não é tão inteligente quanto deseja aparentar. Finges ser uma coisa que não és, com a intenção de desvirtuar tudo aquilo que não consegues ser. Tens uma mente tão pequena que nem uma semente pode ali germinar. Ao ouvir essas afirmações que a definiam tão bem, a Inveja se recolheu a sua insignificância e não mais perturbou a Inocência.


Débora Benvenuti

domingo, 18 de novembro de 2018

O Ensinamento, a Interpretação e a Conseqüência






O Ensinamento era um ser muito culto e profundamente letrado. Procurava transmitir da melhor maneira tudo o que havia aprendido, não só nos livros, mas na prática também. Seus ensinamentos lhe serviam de âncora para aportar em qualquer área que fosse solicitado. Havia ,porém ,um senão: a Interpretação. Esta estava sempre atenta ao que ouvia, mas sempre divergia do que lhe havia sido ensinado. Acreditava que devia formar a sua própria opinião. E se não concordasse com ela, poderia emitir o seu próprio parecer. E assim sendo, levava ao conhecimento de outros tudo aquilo que julgava correto. Afinal, já havia aprendido o suficiente para formar outras opiniões. A Interpretação estava repleta de razões que ela considerava estarem corretas, do seu ponto de vista analítico. Se assim não fosse, emitir o seu próprio parecer era tão importante quanto escolher aqueles a quem ela pretendia atingir: os que aceitavam qualquer versão, não importando a fonte do conhecimento. Nesse momento, a Conseqüência aparecia e queria satisfações daquilo tudo que estava sendo divulgado. A Interpretação se sentia ofendida e não era para menos. O que ela ouvira do Ensinamento acreditava que era o correto. Não percebia que estivera a distorcer a verdade dos fatos. Afinal, cada um interpreta o que quer e não aquilo que julga ser o correto. Exatamente esse era o ponto crucial. A divulgação do que alguns chamaram de fake news.


Débora Benvenuti


domingo, 23 de setembro de 2018

A Suspeita e a Certeza




A Suspeita andava muito ansiosa. Sabia que algo estava acontecendo e tinha tanto medo de saber a verdade que mal conseguia dormir. Era uma inquietude que a consumia por dentro, como se algo estivesse remoendo suas entranhas. Precisava falar com a Certeza e assim, dizimar um pouco toda a angústia que sentia. Por outro lado, se a Certeza confirmasse suas suspeitas, aí então que nunca mais dormiria sossegada. Agora não se tratava só de suspeita. Seria o veredito final. E contra a Certeza, não havia quem pudesse reverter a situação. Talvez fosse melhor conviver com a suspeita, pensou a Suspeita, pondo-se a meditar. Mas será que não seria melhor saber a verdade? A verdadeira verdade seria uma Certeza contra a qual ninguém poderia duvidar.  Afinal, certeza é Certeza. E ponto final. Por outro lado, talvez a Certeza não fosse tão ruim assim. Havia Certezas boas e Certezas más. Por via das dúvidas, era melhor permanecer com a suspeita, ponderou a Suspeita, pondo –se a pensar...



Débora Benvenuti

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Vários Tons de Cinza



O Cinza amanheceu cinzento, mas de uma tonalidade tão marcante que até ele próprio se desconheceu. Olhou ao redor e percebeu que naquele momento, haviam vários tons de cinza, dos quais ele jamais havia visto. Havia cinza no amanhecer, mas não era um tom de cinza qualquer. Era uma tonalidade de cinza fumê, daquele tom que se obtém quando se usa o esfuminho para tonalizar um desenho. E havia cinza também nas janelas das casas. Mas estas cinzas foram deixadas ali pelo próprio tempo, que se encarregara de tornar aquele tom de cinza impossível de se reproduzir. E o Cinza se espalhava rapidamente, como se quisesse penetrar na alma das pessoas. Muitas vezes era isso mesmo que ele queria: tornar o interior das pessoas tão cinzento que até mesmo uma erva daninha ali não se reproduzia. Mas por que o Cinza queria tornar tudo cinza? Talvez nem ele mesmo soubesse. Não que se sentisse menos nobre por ser cinza. Haviam vários tons de cinza que eram nobres e ficavam muito bem em qualquer lugar. Mas era porque ele mesmo se sentia cinza. Por dentro e por fora. Se ao menos fosse cinza só por fora e por dentro houvesse uma luz interior que tornasse o Cinza em cinza prateado. Prateado? Mas por que não pensara nisso antes? O cinza prateado era uma cor perfeita! E pensando assim, o Cinza percebeu que poderia ser tudo o que ele quisesse ser. Poderia ter todas as tonalidades que quisesse e assim poderia mudar o pensamento das pessoas. Tudo o que fosse um cinza desbotado e sem vida, poderia renascer das cinzas e se tornar tão nobre quanto o próprio Cinza, depois de cada amanhecer. Bastava que seu coração fosse nobre, não importando o tom de cinza...




Débora Benvenuti

As duas Faces do Segredo






O Segredo estava cansado de ser só segredo. Precisava contar a alguém o que carregava consigo há tanto tempo. Mas cada vez que pensava nisso, ficava em dúvida se o que sabia traria algum beneficio ou faria muito mal a quem era o guardião de tal segredo. Será mesmo que ninguém mais sabia o segredo que o Segredo escondia? Ser Segredo era um fardo muito pesado e a cada dia que passava, o fardo aumentava, tornando assim o Segredo muito difícil de continuar calado. E se contasse a mais alguém, só para aliviar um pouco o fardo, será que isso deixaria de ser segredo? Com certeza, pediria que tudo permanecesse em segredo. O Segredo ficou pensativo por um longo tempo. Pensou, pensou e pensou. Devia ou não compartilhar com mais alguém? Mas com quem? Quem seria o ser mais indicado para manter o Segredo em segredo? Talvez o Silêncio fosse o mais indicado, apesar de saber que o Silêncio muitas vezes podia ser quebrado. Esse não saber o que fazer estava deixando o Segredo ainda mais desesperado, pois quanto mais pensasse, mais pesado se tornava o segredo. Depois de muito pensar e não chegar a nenhuma conclusão, decidiu que o melhor a fazer era ficar calado, a espera que, em algum momento alguém decidisse o que fazer com ele.


Débora Benvenuti